quinta-feira, 2 de junho de 2011

E os poetas, prestam?

(republicando textos que foram originalmente postados no meu blog semi abandonado www.carambolismos.blogspot.com)

Quanto à Liberdade
24 de março de 2010.

eu tinha medo de me dizer artista e era pra não cair na vala comum que é se acreditar demais ou , pior,  condenar-se a uma santidade pós-moderna que inversamente acredita-se de menos, e tem como objetivo  o idêntico simular de uma espécie de nirvana que é paradoxalmente materialista. mas acontece que de alguma forma eu também percebia que não se acreditar era estranhamente comum aos homens que se  autovalorizam santos e que são falsos. então, parecia que era como se não ser comum, sem questionar o fato, ganhasse status superior e o artista passasse a ser divino por não ser comum, sendo, portanto, pela característica incomum, um condenado à mesma santidade pós-moderna que por si só já é falsa. mas aí eu estava pensando, por estes dias, que preciso ver a vida mais colorida e foi quando eu ouvi uma menina dizer que ainda bem que ela era artista. e, acontecendo que o desenho dela nem era tão bom, eu tive um clic que foi alguma coisa daquelas que antes eu não tinha porque era criança e aquele clic não vinha. mas, então, ele veio e eu entendi que estava lá  na fala daquela menina a resolução de uma questão que eu ainda não tinha resolvida pra mim.  e a resolução me dizia que, na verdade, ser artista ainda era  estar feliz com o poder olhar o quadro molhado, recém lambrecado de tinta, ou o desenho no papel de caderno, e dizer para si  e para os outros: ainda bem que eu sou artista. afinal de contas, no fim do dia, os não artistas voltam pra casa, para  as suas poltronas e para as suas novelas, e para os noticiários ou cursos on-lines, e tudo o que sabem fazer, ou nem sabem, é pensar que amanhã precisam estar descansados para o trabalho. e, no caso do artista, mesmo que ninguém goste do desenho (também servem músicas, bordados, escritos e afins), mesmo que ninguém  mais saiba que aquilo é arte , mesmo que a obra não seja muito boa, mesmo que não se ganhe dinheiro  ou reconhecimento  e as dívidas se amontoem no topo da geladeira, ao invés de voltar pra casa para simplesmente repor as forças  necessárias a um trabalho alienado, o artista vai desenhar , cantar, tocar, bordar ou escrever  qualquer coisa que talvez não seja linda, mas que é sua. e isto tudo é só para, depois de fazer, olhar com satisfação para a coisa e dizer : ainda bem que eu sou artista. e sendo assim,  da condição de  o condenado da história, o artista passa a dono de sua mais-valia ; e ao invés de mero sujeito de uma auto-valoração ridícula,  o artista é livre.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

V Quase Concreto

  
Aos Desejos


Só por hoje cansei de amores em cartas
Queria era afundar as mãos no alcance dos teus lábios.
Porque, se acreditar é fundamentalmente um ato...
Deus do céu, quanto pecado!




  

IV Quase Concreto


Crescer


É aprender a gostar.

Gostar de comer jiló e cebola,
gostar de falar complicado,
gostar de ficar parado,
etc.

Já reparou como velho gosta de tudo?

Velho gosta de conversar fiado
Velho gosta de jogar baralho,
Velho gosta de receber visita,
etc.

É que crescer é se acostumar com a vida,
e velho já está acostumado.





III Quase Concreto

   
Clusters

Odeio ter essa memória de elefante

Seria bem mais elegante ter uma alta e esguia.

Uma memória de girafa eu queria.






II Quase Concreto




Tempo

Estipule um prazo,
eu prometo
.
.
.
Excedo sua
expectativa de atraso.






I Quase Concreto

.




IN verso

é a metade IN terna do verso.






.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A HONRA AMARRADA

ele, o caralho
é um canalha

que teu roto agasalho
atrapalha

ele, o caralho, sem dó,
como um cão na cachorra,
cheio de porra ,
dá um nó !

tua honra amarrada
âncora de preconceitos...

... vai ao fundo
do oceano dos leitos

e agora todo mundo
chupa os teus peitos

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Dois poemas do meu amigo Carvalho

Carvalho, ou Roberto De Carvalho,  também publicou poemas no Literatuara Alternativa. Alguns poemas muito interessantes e extremamente singulares. O poema Rio Revisitado, da postagem anterior é de sua autoria. Ao Carvalho devo um comentário dos  poemas que  estou postando no Blog.  Em breve esse comentário estará pronto. Trata-se, de dois textos, escritos sobre o mesmo tema/pessoa, em epócas diferentes, que se diferenciam enquanto desdobramento do estilo de escrever do Carvalho, (...),  há uma conquista poética  de um texto em relação ao outro, mas isso não é tudo, os dois poemas são textos de escrita forte, que não agradam a ouvidos que gostam somente do doce da poesia, dos seus temas menos secretos e pervertidos, que não fazem  dela esse olhar "pesquisa" do que há de mais problemático   e interessante na vida. Caio que era dado a "beber conhaque no gargalo", gosto muito dessa imagem, rs. Leiam os dois poemas e será possivel perceber o que estou dizendo.



Caio

Cruas ruas
Andam
Teu andar
De pedra

São amplos teus espaços
E tão amplos são
Que esbarram cada um
Dos dois lados da vida

E tu és cru
Tu és cruel
E doce é tua crueldade
Ainda porque és Caio Nunes Louback

Carvalho
01/06/2010



Caio

Sorvia a vida
Como bêbado de rua
Dado a beber conhaque no gargalo.
Fantasiava, mentia,
Como não havendo na verdade valor algum
Nem na realidade algum sentido.

Se jogava nos braços das mulheres,
De todas as mulheres que lhe sorrissem
Ou se jogassem em seus braços.
Queriam todas vê-lo, pela manhã,
Acordar, se levantar da cama,
Depois de noite farta de cerveja e sexo.

Sorvia a noite
Como se as algazarras de dia
Tivessem outra linguagem;
Depois de ter passado o sol
E o céu escurecido;
Falada numa língua que ele só entendia.

Só vivia uma vez
De cada vez.
Vestia uma roupa a cada dia,
E saía para viver uma única vida.
Como um louco qualquer...
Destes que sabem nada mais haver além.


Carvalho
27/10/06

domingo, 19 de dezembro de 2010

Rio revisitado


Arranjo os rebotalhos,
Remendo o passado.
Respiro teu perfume
Pérfido, sagaz, pervertido, prostituído, malandro e amargo.
Cuspo no prato que comi.
Cuspo pra cima também:
O escarro volta e lambe a minha cara.

Me lembro do Giovane,
Sozinho no Amarelinho...
Por ele eu tomo,
Pra ele eu bebo
Vários chopps no Amarelinho...
Bebo, como os amendoins
E vomito no mundo.

Ah, se estivesse por perto agora
Alguém que eu gostasse!
Bastante dinheiro, quem sabe?
Construiria uma noite gostosa.
Depravada?
Não, infinita...
Como a dos pivetes que rondam os monumentos!

Da praça,
Da noite,
Do Rio...


Por Carvalho

domingo, 21 de novembro de 2010

O homem do mar

          É com grande pesar que recebo a notícia de que o amigo e escritor Moacir C. Lopes faleceu hoje, pela manhã, no Rio de Janeiro. Há quase dez anos eu o via pela primeira vez, numa palestra sobre seu romance A ostra e o vento, ocorrida num Encontro de Escritores em Viçosa-MG. Depois disso mandei-lhe e-mails, pesquisei a sua obra, e teve início uma grande amizade. Tive a oportunidade de estar com ele outras vezes em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Soube de seu falecimento pelo amigo Manoel Carlos. Moacir Lopes parte deixando uma obra ímpar e saudades sem fim. 

          Certa vez escrevi um poema, "O homem do mar", que dediquei ao amigo Moacir C. Lopes:



O homem do mar

                                            A Moacir C. Lopes

O mundo sopra
o vento, que adentra
feito corrente de ar
a sua morada.

O sopro
uivado na bananeira
atravessa a janela
percorre corredores.

O vento circunda
adentra o peito do homem
do mar. Labirinto
e sonho de voar.

O suspiro do homem
vira vento no mundo.
As folhas se contorcem
bananeira a uivar.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Metástase



Amigos,

Também estou com o livro do Ptolomeu Carus em mãos. Tive a sorte de o livro ficar pronto justamente na época em que me encontrava em Caratinga. Depois disso já andei por São Paulo, onde andei divulgando a obra do amigo Cássio.
Como os links no rapidshare expiram se ninguém baixar os arquivos no prazo de 2 meses (e os jornais do Literatura Alternativa expiraram nesse meio tempo já duas vezes), estou novamente atualizando os links. Vale lembrar que estão disponíveis aqui no blog e no pré-site www.literaturaalternativa.hd1.com.br

Os links são:
1ª parte:
http://rapidshare.com/files/425678720/literatura-alternativa01de03.zip

2ª parte:
http://rapidshare.com/files/425689659/literatura-alternativa02de03.zip

3ª parte:
http://rapidshare.com/files/425696370/literatura-alternativa03de03.rar

A publicação de Metástase me deixa muito feliz. Quero abraçar o camarada Cássio Brancaleone pela publicação e dizer que comemoro com ele (e com todos) o comparecimento da obra. Meus parabéns também ao companheiro Abiatar pelo prefácio de fôlego e de tom acadêmico. O livro Metástase está na praça e me faz sentir que a literatura continua a nos unir.

Abraços,

Marcos Teixeira
www.marcosteixeira.hd1.com.br

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Lançamento em Caratinga-MG - 08/10/2010

Pessoal,
Vou fazer o lançamento do meu livro, Os deuses comem pão e outros poemas, no dia 08 de outubro, que dá numa sexta-feira, na Casa Ziraldo de Arte e Cultura, em Caratinga-MG, às 20 horas. Estejam todos lá.
Já está feito o convite.
Abraços.

Marcos Teixeira
www.marcosteixeira.hd1.com.br

sábado, 7 de agosto de 2010

Infância

Marcos Teixeira

A infância não está no calendário

não está no álbum, no porta-retratos

a infância se descoloriu de todo

transfigurada, esmaeceu inteira

ficou reclusa embaixo do chapéu

alimentando o sonho e a saudade.


A infância também ficou segredada

no interior de Minas, num lugar

entre montanhas, à beira do rio.

Uma parte ficou em Caratinga

outra em Lavras, correndo pelas ruas,

descobrindo um amor numa janela.


Mas então a infância está no mapa?

Mas o que fazer se o mapa só leva

ao peito do homem de barba e chapéu?

O homem apoia a cabeça entre as mãos

a infância também lhe escorre por dentro.








O poema "Infância" foi publicado na página 07 do número 07 (nova série) da revista Jararaca Alegre, que é editada pelo amigo Camilo e distribuída em Minas Gerais. A revista foi lançada no Festival Cultural de Caratinga em julho de 2010. Quem tiver interesse em conhecer a JA, visite o blog do Camilo: http://jararacalegre.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Artigo no Suplemento Literário de MG

Amigos,

Acaba de sair um pequeno artigo que escrevi sobre o diário de Maria Carolina (Do leito ao jardim) no Suplemento Literário. A ideia do artigo é divulgar uma obra rara, de difícil acesso, que tive a sorte de encontrar num sebo de Belo Horizonte. Desconheço um acervo que a possua. Maria Carolina era irmã de Aníbal Machado e de Lúcia Machado de Almeida, prima de Murilo Mendes, integra assim uma série de escritores que pertencem a uma mesma família.
Neste mesmo exemplar do Suplemento Literário foi publicado o poema "Carta de Alfor(ria)", do conterrâneo Maxs Portes. O Suplemento Literário se encontra disponível em pdf no site da Secretaria de Cultura do Estado de MG. Para baixar o suplemento, entre no site do governo ou clique aqui.
Abraços a todos,

Marcos Teixeira.
www.marcosteixeira.hd1.com.br

domingo, 2 de maio de 2010

O professor e seus amigos de bar

a rua está cheia
de travestis
a árvore está cheia
de bem-te-vis
o bar está cheio
de manequins
e o brinde está cheio
de tim-tins
a poeira está cheia
de atchins
e as putas estão cheias
de sins
a praça está cheia
de gente feliz
e a água está por meia
no chafariz
e a mesa está cheia
de uma meretriz
a conta está cheia
de dedos e um nariz
o garçom está cheio
de lápis
e a música cheia
de refrãos
e o papo está cheio
de nãos
o mundo está cheio
do que não fiz
e no ar um cheiro
de giz

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Eu canto a América Histérica

Eu canto a merda da América,
a vergonha da pretensão metafísica
de republicanos e democratas,
a reação de uma presidência histérica,
a vingança a caminhar por trilhas acrobatas,
eu canto a América Neurótica,
que estende suas mãos de políticos-primatas
à latinidade ibérica,
eu canto a América Ética,
a América Gorda,
a América Diabética,
a ridícula América que de bruxa
desajeitada tem verdadeiro encanto,
com o qual,
para global espanto,
invade e destrói um país inteiro
com o pretexto de chegar primeiro
às portas da Ignomínia,
convertendo toda esquina,
rua e terreno em bueiro,
confundindo entradas e saídas,
usando como tijolos as próprias vidas
na construção de um quartel, um prédio inteiro,
que servirá à democracia de puteiro.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ode Psicografada

Noites de dezembro em Caratinga
A cidade adormecida
Regurgita seus sonhos
Em travesseiros inquietos.

Mãos e mentes encastelaram muitos corações
Emparedando vivos desejos e suspiros
Em corpos domesticados
Pela força da cruz e o tilintar das moedas.

Mesmo o frenesi cotidiano
Da luta pela existência
Segue o ritmo de uma melodia
Assustadoramente
Límpida, harmônica e repetitiva.

Dias e noites constituem o tempo
Como nuvens que escondem o sol
Mas não se precipitam em tempestades.

A cidade adormecida parece apenas
Alentar mais sono
Soniferamente
Mais e mais sono.

O que é possível esperar
Dos adormecidos?
Por que nunca elevam seus sonhos
Para os estados de vigília?
Em vigília apenas adormecimento,
Atávico adormecimento.

O que posso além de vomitar e instilar
Todo o meu veneno, revolta e insatisfação
Neste secreto pedaço de papel?

O que além de contemplar
O suor entre meus dedos mal iluminados
Por mais uma noite áspera e indeglutível?

Quantos loucos e inconformados deverão
Formar fileira lado a lado
E sacrificar-se
Junto a viciados, pederastas, putas, pequenos delinquentes e dementes
Para poder afrontar o curso naturalizado
Das coisas?

Caratinga, amaldiçoada por seus malditos
Sem pernas e braços,
Incapacitados, acorrentados e impotentes
Para subverter algo a mais que a si próprios!

Caratinga, cidade dos exilados
Daqueles que se exilam dentro ou fora de ti,
Dentro ou fora de si.
Por que insiste em prantear e rir
O pranto e o riso carpidário e televisivo?

Caratinga, soterrada entre montanhas
Caratinga, inundada pelas águas do rio
Caratinga, protegida pela sombra das palmeiras
Caratinga, pequeno e singelo ponto no mapa
Elísio demoníaco e celestial
Que se mantem demoníaca e celestialmente.

Suas orações e blasfêmias
Se igualam
Em um mesmo composto,
Uma mesma mecânica moral.

Caratinga que me gerou
E me quis um dos seus
Por que tanto reluta
Em contemplar-se no espelho e enxergar
Para além das roupas e sapatos?
É tão constrangedor e brutal assim
Encarar a sua própria nudez?

Pois a nudez alheia sei que aprecia,
E como aprecia...
Em seus escritórios, praças e bares
Fala e evoca imagens dos outros que estão nus
De seus inimigos e aliados que querem desnudar
De seus meninos e meninas, homens e mulheres
Que ambiciona descascar
Como uma fruta impassível ao alcance
De uma
Apenas uma das mãos
A outra,
Deve manter no bolso
Ou pendente ao corpo
Como demonstração visível de como finge
Ser limpa, correta, pura e sincera.

Caratinga, não pode enganar-se por muito tempo
Nem o tempo todo.

Seus espectros insones sempre lhe perseguirão
Aqui ou do além túmulo
Seus vivos e mortos insaciáveis
Pairam sobre o seu coração reservado e autocontido.

O efeito corrosivo de seus filhos mal paridos e renegados
A ação do tempo do mundo sobre ti
É inexorável
Com ou sem profetas de ação e profecias de fogo
E não há sinos nem catedrais
Nem bispos ou prefeitos
Capazes de sustentar sua atonia
Indefinidamente.

No interior daquilo que há
De mais podre em ti
Os elementos dinâmicos da vida
Também se agitam
Ainda que comprimidos e invisíveis.

Seus mais sólidos alicerces
Estão assentados em terreno pantanoso
E o pântano vai lhe engolir, Caratinga.
Querendo ou não, você afundará
Na lama que acredita ser rocha sólida.

Sua curiosa fortuna
É que o pântano também é vida
Respira, transpira e reproduz
Vida
Seus gases pútrefos nutrem e vivificam
Matéria orgânica e inorgânica.

Por isto não terá
o destino submarino de Atlântida.
E será impelida a se refazer
Recriando-se com as ruínas
Daqueles que agora te arruínam.

Caratinga, cidade-pântano
Não cidade-cemitério
Caratinga, cidade-borrão
Não cidade-apagada

Meu sorriso tímido de lagarto
É incapaz de expressar a estranha sensação de ter
Na boca e nos olhos
O amargo e vívido vestígio
De seu prateado amanhecer.



Cassio Brancaleone

(Caratinga, madrugada de 30/12/2007)

Deformática

Deu um problema no meu computador
Deu um problema no meu computado
Deu um problema no meu computad
Deu um problema no meu computa
Deu um problema no meu computa
Deu um problema no meu coputa
Deu um problema no meu cputa
Deu um problema no meu puta
Deu um problema no meu cput
Deu um problema no meu cpu
Deu um problema no meu cp
Deu um problema no meu pc
Deu um problema no meu c
Deu um problema no meu p

terça-feira, 16 de março de 2010

ARITA





Estou enojado
da poesia
macabra que se tornei
a vida que digo minha

e olho o corpo dela
nú e sem pêlos

e volto para mim inapto
a sequer gorjitar

a mim encima da mesa

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

POETA DE ALUVIÃO

POETA DE ALUVIÃO

Nasci naturalmente poeta



daí então, na hora certa, deixei-me levar pela mão

Levado demais

fui formalista, menino de mil tradições

Nasci com muitas missões, naturalmente poeta

mas para agradar companheiros

(russos, franceses, ingleses de ocasião)

fui analista, fui esteta


artificialmente cresci


Ademais, aprendi e desaprendi o cansaço das línguas

desumanizei o meu verso

perdi todas as sementes das flores do mal

e o que era pra ser, afinal, não foi

virei uma espécie de sapo-boi alumbrado

Falei difícil, hermeticamente fechado

Falei a linguagem linguagem

ponte e fachada para o nada, lugar nenhum


Hoje eu sou mais um que se despedaça

Minha poética fina, sem substância de massa

não tem como dar às bocas carentes de poesia

o grosso sustento diário de dor e de alegoria

que fazem do homem humano, comedor de feijão,

o inicio e o fim do poema


Levado demais, fui além, deixado levar pela mão

(meus pés já não tocam o fundo do rio)

Poeta para poetas, poeta de aluvião