quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A felicidade é uma invenção... pois então, que inventemo-la!




Ícaro que estava certo ao atirar-se em direção ao sol com suas geniosas asas de cera, ignorando os apelos de Dédalos, na expectativa de alcançar o mais alto de seu limite, dobrar seu horizonte. Mesmo que seu sonho e desejo lhe foram debitados como morte certa e derradeira, guiou-se pela sua vontade, e no grande anseio de realizá-la ousou, desafiou e correu os riscos.
O homem sempre está em busca de algo, das mais diversas naturezas, muitas vezes sem nem mesmo conseguir traduzir o que almeja, na ânsia de preencher alguma coisa em seu interior que parece estar incompleto (ao menos é essa a sugestão mais apropriada: imanentismo transcendental?). Isso: incompletude, eis uma das condições mais básicas do ser humano. Como produção e construção social, histórica e existencial, o homem é um projeto, que se faz fazendo algo daquilo que fazem de si. E como fluxo somato-psíquico heraclitiano, o homem não é, está, e mais que está, está sendo. A mudança, a permanente mudança corporal, estética, mental, espiritual, social, cultural e moral é o que nos torna aquilo que somos/estamos, e o que dá a nossa condição de projeto uma infinidade de possibilidades... O curioso é que muitos de nós encontramos grande dificuldade em conceber isso, a autonomia da própria consciência, mesmo com o peso de todos os condicionantes e determinações, e nos esquecemos que há algo de vivo e pulsante, em algum lugar desconhecido entre as tripas e o coração, ou seja lá em que outra concavidade ou estrutura fisiológica que se queira sentimentalizar, mas dentro do ser e que só ao ser pertence, e só pelo próprio ser pode ser conhecido.



ptolomeu carus

5 comentários:

  1. Cássio, gostei muito do seu texto. Mas muito mesmo. Esta parte é demais:

    "Isso: incompletude, eis uma das condições mais básicas do ser humano. Como produção e construção social, histórica e existencial, o homem é um projeto, que se faz fazendo algo daquilo que fazem de si."

    Além do Heráclito, você tem uma referência bibliográfica sobre este assunto aí? Gostei. Se tiver diz aí.

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  2. Camarada, que bom que isso te anima... é existencialismo do bom e na veia! hahahaha
    Além do elementar de Sartre e Camus, se te interessa, o "Ser e o Tempo" de Heidegger é uma instigante leitura. Agora, se o negócio é aclimatizar isso a luz da nossa experiência (latinoamericana), tem um rastro fenomenal deixado por intelectuais como Alvaro Vieira Pinto, Guerreiro Ramos, e o argentino Rodolfo Kusch...

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  3. Como fala Humberto Holden: Transcendência meu caro, transcendência.
    Feliz do homem que pode ousar!
    Maravilha de texto!!

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