segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Diário de leitura com ausência do calendário


Ao Carvalho

Os ciclopes do Roberto Piva
Estão entre as máquinas poéticas que me sentem melhor.
O poema imagem seqüestrado de objetos e acontecimentos sem condizes que apenas pela força de uma imaginação produtiva e cultivada encontram sentido...

Cadernos de poesia envelhecendo nas minhas cartas
não se importando com os bobos do poeta!
Regados com meu tédio
de escrever uma serpente
eternamente tristemente emplumada!
O poeta resplandecido de urubus
vivendo suas profundas pesquisas!

O poema imagem é o sentido
como um cão tem sentido
O poema imagem me faz lembrar
Vazios linguareiros de linguagem

Esqueleto da lua no meio da rua
Tambor rápido vomitando a noite nos meus cadernos.

domingo, 29 de janeiro de 2012


Romance policial
(refazendo um editorial escrito em 1999)

Júlio amou Cristovão
com o preço de três dentes de alhos.
Juntos eles fizeram do amor uma receita de bolo
Sujando com rabanetes sentimentais os olhos de Carlos.
Carlos era apenas uma carta guardada no quintal;
Carta branca, ridícula...
Como uma coisa manchada de despeito e vaidade,
O amor era a coisa mais besta que eles poderiam sentir...
Ouvindo a canção idiota de Eros
Cantaram a lua, ficaram olhando pro mar, felizes!
E tudo foi tão difícil quando acabou.
O final trágico da história
Julião se matou no banheiro
Cristovão resolveu perseguir uma vaca
Safira no asfalto.
Ontem a poesia se comportava como eles;
Talvez seja difícil de compreender, pois
os lados do texto são distintas ruínas
mas a poesia se queimou, ficou distraída no teto,
surda saiu procurando aplausos e reconhecimento. 
Escreveu suas biografias
Copiando-se ternamente dos jornais antigos.
Encontrou para o editorial outro ritmo
e para corpo a mesma procura
para além de Cristovão, Julião e Carlos.




sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Mais uma canção do grande Manoel Boca

Mais uma canção do amigo Manoel Boca. Desta vez com dois poemas do meu livro: "O homem do mar" (dedicado ao escritor Moacir C. Lopes) e "Poesia confessional".
Cliquem aí para ouvi-la.

O homem do mar Poesia confessional- Manoel Boca, A Moacir C. Lopes e Marcos teixeira by manoel boca

terça-feira, 22 de novembro de 2011

fragmentos da febre/o primeiro caderno





NO CAMINHO DAS ABELHAS

Para compreender rizomas divinos
Acordei na roça do Chico há muito tempo
O céu ainda estrelado
Preparava um azul terrível
O espelho da relva nos meus chinelos

A VIDA EM 1997

Um menino no odor domingo
Longe de Platão
Na rua do sabão



O RETRATO DE OUTRO CÃO

A palavra cabala 
arranhando-se 
de folhas na folha 
enquanto escrevo
Mas basta você passar
Sinto-me furtivo
Escrevo-me furado
e desejo seu nome
segredado




ANÍMICO

A menina mira
As mãos no corpo
E desenha
O menino mira
As mãos no corpo
E desenha
O rosto desenhado
Expande a menina e o menino
Sou a tarde sufocada vagarosa 
No corpo deles 
Me detesto nos bancos
Me amo nas tintas



sexta-feira, 15 de julho de 2011

Cantiga do moribundo na voz de Manoel Boca



Aí está a música que o compositor e amigo Manoel Boca fez com o meu poema "Cantiga do moribundo", que, por sua vez, pode ser encontrado no meu Os deuses comem pão e outros poemas (2010). Se não conseguirem ouvir a música aqui pelo blog, cliquem aqui.
O Manoel Boca é cantor e compositor lá de Caratinga-MG e tem tocado junto com outra amiga, a Analigia Reis. Também tem trabalhado junto com a cantora lírica Vânia Melo e certamente tem feito muito mais coisas que eu preciso ainda descobrir. Para ouvir outras músicas suas, entrem no seguinte site: http://soundcloud.com/manoel-boca
Publico aqui o poema na versão do livro. Obrigado Manoel!
Liguem as caixas de som aí e boa apreciação a todos.

Cantiga do moribundo

Vejo um rato no meu quarto
meu olhar repara tudo.
Ele corre pelos cantos
pelos tacos, rodapés.

Tem um rato no meu quarto
que parece não me ver...
me levanto então da cama
deixo a porta entreaberta.

No meu quarto tem um rato,
muitos livros e papeis
manuscritos e jornais
me vigiam das estantes.

Já deitado vejo o rato
que me busca em seu olhar,
nele encontro uma tristeza
que vem dele e vem de mim.

Quando enfim a luz apago
deixo o rato em paz no escuro.

— Boa noite meu pequeno.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Caratinga de braços abertos



Caratinga completou 163 anos com muita festa e uma programação cultural muito interessante. Minha esposa e eu estivemos presentes. Convidamos um grande amigo meu chamado Ednaldo Moreira, que atualmente vive em Campinas, onde faz doutorado em Teoria e História Literária. Ednaldo é natural de Rio Casca. Fomos colegas na graduação, quando moramos em Mariana, e depois estudamos em Belo Horizonte. Apesar de ter nascido tão perto de Caratinga, não conhecia ainda a cidade das palmeiras e da Pedra Itaúna. Bastou o convite, um pouco de propaganda e ele compareceu.
Logo no primeiro dia, estivemos no lançamento de livro do Camilo, apesar de chegarmos no final, por causa do atraso na viagem. Foi o momento de conhecer uma das coisas mais bacanas da cidade, que é a Casa Ziraldo de Cultura, e conferir a exposição Poesia e cartum: duas visões de Drummond. Conversamos com o amigo Camilo, que fez as dedicatórias e deu boas-vindas ao Ednaldo. Depois disso tivemos a oportunidade de tomar uma cerveja gelada ouvindo os músicos Manoel Boca e a Analigia Reis. Meu amigo conheceu todo mundo. A jornalista Fabiane Arêdes listou todos os lugares que ele precisava conhecer na cidade e definiu muito bem o caratinguense como um povo hospitaleiro e talentoso. Devemos ao amigo Hermam Mendes a boa conversa sobre música popular e a situação do compositor na cidade e no Brasil.
No dia seguinte, o primeiro dia de festa, o Ednaldo conheceu o pão de queijo da dona Odila, minha mãe. Era feriado. Estivemos em alguns pontos turísticos da cidade. Meu amigo viu o monumento do menino maluquinho, a construção do santuário e o tapete decorativo que fazem nessa época do ano. Tudo isso muito rápido, pois era preciso subir no alto da Pedra Itaúna, o cartão postal mais importante da cidade. Parapentes deslizavam no céu. O acesso, que merece ser alargado, não está tão mal, mas precisa de cuidados, pois há buracos e mato. No alto da pedra avistamos a cidade pequenina lá embaixo. É de fato muito bonito. Considerei que aquelas antenas poderiam ser afastadas e no lugar poderíamos ter um restaurante ou algo do tipo. Seria muito bom fazer uma refeição vendo aquela vista maravilhosa. De volta, fomos para a praça ver as apresentações musicais no coreto do Oscar Niemeyer, comer e beber. Confesso que não entendi aquelas gravuras religiosas no palco. De qualquer forma, embaixo delas havia boa música. Considerei que o som poderia estar mais baixo, mesmo quando se toca rock. Mas esses detalhes não diminuíram a importância e a beleza da festa. A cidade, aliás, estava lotada. Foi o dia em que tocaram Renata Cordeiro e Ronise Ramos, dentre outros.
No dia de aniversário da cidade, estivemos no sítio de meu pai pela manhã, passando por Piedade de Caratinga. A estrada estava boa. No percurso, meu amigo conheceu a região da avenida Dário Grossi, avistou os prédios da Unec, dentre outras coisas. À tarde estivemos mais uma vez na praça Cesário Alvim. Não queríamos perder o show do Thiago Delegado, cujo trabalho acompanho desde a época em que tocava com o músico Ausier, no Pedacinhos do Céu, em Belo Horizonte. O Thiago Delegado e os demais músicos nos presentearam com um show muito bonito e emocionante. No meio da plateia avistei muita gente conhecida: Nelson Sena, Fernanda Cordeiro, Camilo, Paulinho Paul, Raul Miranda, Edra, dentre outros. Nesta noite pude apresentar ao Ednaldo o meu grande amigo Fernando Campos, que esteve conosco durante o show do Thiago Delegado.
No dia 25 lá estávamos de novo na praça, conferindo os shows. Ficou faltando apresentar ao meu amigo muitas pessoas interessantes da cidade, como o Carlos Araújo e o escritor Maxs Portes. Mas haverá tempo para ele conhecer todo mundo e também a arte produzida pelo caratinguense. No dia 26 nos despedimos do Ednaldo, que seguiu para Rio Casca, sua terra natal. A rodoviária de Caratinga é boa, mas precisa de atenção e melhorias. Tenho certeza que agora Caratinga segue junto com meu amigo e, com ele, rodará todo o Brasil. Adriana e eu ficamos um pouco mais para matar a saudade da terra, da família e dos amigos.

 
Fonte:
TEIXEIRA, Marcos. Caratinga de braços abertos. In: Diário de Caratinga. n. 4734. 30 jun. 2011, p. 07.

domingo, 5 de junho de 2011

Fernando Campos, poeta de sete faces

Foi em Caratinga. Não sei dizer exatamente quando tudo se deu. Sei que foi antes de aparecerem as máquinas digitais e os aparelhos celulares, que um dia, quando andava interessado por fotografias, acabei conhecendo o poeta Fernando Campos, em visita que fiz à sua casa. Quem nos apresentou foi o artista plástico Geraldo Lomeu, que conheci por meio de meu irmão mais velho. Nessa época, o pintor andava com uma máquina profissional e registrava detalhes da cidade das palmeiras. Lembro-me bem de uma pintura inacabada do Lomeu que representava o ventre de uma mulher abrigando uma espécie de jovem de pé grande. Tempos depois ele alterou o desenho e terminou a pintura.
Fomos recebidos pelo Fernando Campos que, em Caratinga, consegue a façanha de ser artista plástico, fotógrafo, poeta, professor e, nas conversas descontraídas, também é um excelente crítico de arte. Posso dizer então que o conheci primeiro como fotógrafo. Ele nos deixou e foi buscar uma caixa de onde surgiram inúmeras fotografias. Foi nos explicando a técnica, os procedimentos utilizados, a perspectiva adotada, a luz empregada, essas coisas. Tempos depois veria uma de suas fotografias, tirada na Gruta de Maquiné, ilustrando a capa de uma das poucas edições da extinta revista Fissura Crônica.
Depois do fotógrafo, conheci o Fernando Campos artista plástico. Em sua casa podemos encontrar sua produção. Um destaque para o busto de Vera, sua esposa, que talvez eu tenha conhecido primeiro pela escultura. Hoje sei que é uma pessoa maravilhosa. Há lá obras em formato de pé, de mão, dentre outras, que são melhor entendidas com a explicação, sempre erudita, de quem as fez. Nas paredes encontramos também obras de outros artistas. Telas de Paulo Vieira e Sinval. Uma pintura de Paulo Vieira tinha um osso transpassado, já em outra encontramos a Pedra Itaúna.
Enfim o conheci como escritor. Talvez o Fissura Crônica tenha tido uma importância neste sentido. Foi por essa época que conheci o Carlos Araújo e a Mírian Freitas, que me foi apresentada pelo Fernando. Nas diversas visitas que fiz ao poeta, pude ler e conversar sobre sua poesia. Também me aventurei a lhe mostrar meus primeiros poemas e recebi verdadeiras palestras que iam da métrica às imagens plásticas. Ao mesmo tempo me informava acerca dos demais artistas caratinguenses. Também foi por esta época que fundamos um jornalzinho chamado Literatura Alternativa, que possui colaboração desse artista de sete faces.
Residindo fora da cidade desde 1999, acompanho de longe o trabalho dos amigos. Quando não posso visitar a terra natal, é por meio da internet e de publicações como a Revista Itaúna que recebo notícias de todos. Mas já que revelei que o Fernando é um grande poeta, um dos melhores que conheço, vejamos um de seus textos publicado nesta revista, em seu número doze, sobre o qual arriscarei um comentário:

Túrgido litúrgico

Não espero senão o momento
em que passe este asco
(em que pese o nojo)
e esta espécie de misoginia.
Um corpo descendo à terra
sob as pás do silêncio,
mais vale pra que eu padeça
as dores todas do mundo.
Vi como eram belos
os olhos tristes da menina,
vi quando suas mãos mergulharam na terra,
em busca de uma paz ressuscitada.
E antes de descer as escadas,
o pai ainda disse à filha,
à guisa de resposta alguma:
‘A alma, minha pequena,
é você pensando nela’.
Salvo engano, é claro o enigma.

Podemos dizer que o poema trata de uma cena de morte. O eu poético relata suas impressões diante do enterro, possivelmente, de um ente querido. O poema permite duas leituras. Numa primeira, a menina permanece viva e assistiu ao enterro de alguém que lhe é importante. Talvez o da própria mãe. Não temos a pergunta da criança, mas é fácil deduzir que se trata do conceito de alma. Numa segunda leitura, temos o enterro da própria menina e, em seguida, uma rememoração do eu poético acerca das coisas do passado: a lembrança dos olhos tristes, a recordação da pergunta sobre a alma feita ao pai.
Nas duas leituras, o asco comum a uma cena de velório se confunde com uma espécie de misoginia, ou seja, a uma aversão à mulher ou ao contato sexual com a mesma. Neste ponto a primeira leitura se fortalece, pois se poderia pensar na figura de uma esposa. O eu poético, diante da própria mulher, estaria desprovido de desejo e acometido pelo asco. Diante da cena propriamente dita do enterro, vista pela metáfora das pás de silêncio, o eu poético sente o tormento e deseja, também ele, o silêncio ou, melhor dizendo, a tranquilidade que talvez o tempo trará. O eu poético então se dirige para a filha que está triste, que avançou sobre a cova num gesto desesperado de restituir o ente querido, e que, pouco depois, pergunta sobre a alma. Uma pergunta de fato metafísica, como: “— O que é a alma?”. O texto, neste momento, se descola do sujeito para mostrar, e revelar ao leitor, que entre a menina e o sujeito atormentado existe uma relação de pai e filha. A cena não impede que ele tente responder a esta e o faça de maneira desprovida de misticismo.
Numa segunda e mais audaciosa leitura, podemos pensar que quem morreu é a menina e, após o seu enterro, temos uma rememoração do passado, pela perspectiva do sujeito que foi ao enterro, que neste caso não é o pai. O texto então se torna um embate entre juventude e morte e o falecimento prematuro nos lembra o famoso verso do poema “Pneumotórax” de Manuel Bandeira: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.
É preciso observar que os elementos do poema pertencem a um tempo presente: “...o momento / em que passe este asco”; “um corpo descendo à terra”. A partir deste momento, a cena de um enterro, é que o passado ressurge ao eu poético, que solicita, também ele, pelas pás de silêncio, pelo esquecimento futuro. Nesta segunda leitura, a ideia de misoginia perde força em relação à primeira, pois neste caso se trata de uma menina morta. Ao contrário, é certo nojo sufocante que caracteriza o sentimento. Em seguida se dá a cena do enterro. O corpo desce à terra sob pás de silêncio. Para quem está morto a terra que cai não faz barulho. A menina morta recebe o silêncio, já o eu poético, espectador da cena, padece as dores todas do mundo. Silêncio para quem vai, tormento para quem fica. Ainda assim é possível reconhecer ou relembrar a beleza de seus olhos tristes. Os opostos se aproximam no poema: vida versus morte, juventude versus decadência, beleza dos olhos tristes de menina versus o asco despertado pela cena.
Por fim, um momento anterior é rememorado. O cotidiano da menina que desperta para a vida em meio a reflexões metafísicas, quando, por exemplo, nos perguntamos se a alma existe. Antes de descer as escadas, o que sugere diversas coisas, dentre elas o declínio da vida, a proximidade do fim, etc, é que ouve de seu pai que a alma é “você pensando nela”. A alma, sempre pregada por aqueles que nos rodeiam como algo místico e divino, existe por uma racionalidade: “é você pensando nela”. O verso assim dá margem a um questionamento cético. Nesse sentido, é claro o enigma. É racional, pois demanda reflexão, ainda que seja obscuro.
Essa lembrança, à beira da cova, revela mais um vazio do que qualquer crença na eternidade mesmo permitindo a existência de um enigma. O título do poema que apresenta uma rima interna, toante, traz em si o universo místico, no caso, o religioso. Mas esse universo litúrgico é túrgido, o que permite dizer perfeito na forma, por um lado, mas disforme de outro, pois túrgido também significa dilatado, inflado, intumescido. Assim, ainda que lembre Bandeira, é em relação a Drummond que Fernando Campos realiza um forte diálogo neste poema. O último verso remete ao livro Claro enigma, publicado em 1951, trazendo por meio da intertextualidade a relação entre o que é claro, mas ao mesmo tempo enigmático.
 Além dos nossos poetas maiores, o Fernando também me fez lembrar da Henriqueta Lisboa, do livro Flor da Morte publicado em 1949, e em alguma medida dos poetas simbolistas. Mas isso é apenas o que o poema “Túrgido litúrgico” me despertou. Certa vez ele me disse que possui um livro, engavetado, aguardando uma publicação, que pretende distribuir a obra entre os amigos, fazendo uma tiragem pequena. Vamos aguardar o livro deste grande poeta.

E os poetas, prestam?

(republicando textos que foram originalmente postados no meu blog semi abandonado www.carambolismos.blogspot.com)

Ainda quanto à liberdade
10 de maio de 2010.

mas por outro lado, a liberdade também é um problema sério. porque, enquanto me arrebenta o peito, nada do que produzo presta. quero dizer que nada do que eu faço me agrada quando fico assim, livre.  e, ao mesmo tempo, foi quando aconteceu de eu ter liberdade, numa época  em que a solidão era tanta que até meus pensamentos se despovoaram, que eu implodi. porque todo mundo, e isto me inclui, é comum. e eu acho que é do saber geral que quanto menos gente a gente tem na gente, mais a gente corre o risco de se fixar num só que não suporta a barra e foge. apesar do quê, fugir é coisa de vilão. mas quem transforma deliberadamente o outro em vilão é o quê? entendeu? é isso que eu acho. acho também que deve ser verdade que quanto menos atividade se exerce fora do peito, mais o peito se aperta pra dentro de si, numa implosão que faz buraco negro e vira o mau do mundo: salve salve egoísmo! então, olhando por este ângulo, os poetas não prestam e o fundo dessa página é bege. isto porque pra mim não existe 'sem querer'. existe é no máximo  'sem querer eu quis'.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

E os poetas, prestam?

(republicando textos que foram originalmente postados no meu blog semi abandonado www.carambolismos.blogspot.com)

Quanto à Liberdade
24 de março de 2010.

eu tinha medo de me dizer artista e era pra não cair na vala comum que é se acreditar demais ou , pior,  condenar-se a uma santidade pós-moderna que inversamente acredita-se de menos, e tem como objetivo  o idêntico simular de uma espécie de nirvana que é paradoxalmente materialista. mas acontece que de alguma forma eu também percebia que não se acreditar era estranhamente comum aos homens que se  autovalorizam santos e que são falsos. então, parecia que era como se não ser comum, sem questionar o fato, ganhasse status superior e o artista passasse a ser divino por não ser comum, sendo, portanto, pela característica incomum, um condenado à mesma santidade pós-moderna que por si só já é falsa. mas aí eu estava pensando, por estes dias, que preciso ver a vida mais colorida e foi quando eu ouvi uma menina dizer que ainda bem que ela era artista. e, acontecendo que o desenho dela nem era tão bom, eu tive um clic que foi alguma coisa daquelas que antes eu não tinha porque era criança e aquele clic não vinha. mas, então, ele veio e eu entendi que estava lá  na fala daquela menina a resolução de uma questão que eu ainda não tinha resolvida pra mim.  e a resolução me dizia que, na verdade, ser artista ainda era  estar feliz com o poder olhar o quadro molhado, recém lambrecado de tinta, ou o desenho no papel de caderno, e dizer para si  e para os outros: ainda bem que eu sou artista. afinal de contas, no fim do dia, os não artistas voltam pra casa, para  as suas poltronas e para as suas novelas, e para os noticiários ou cursos on-lines, e tudo o que sabem fazer, ou nem sabem, é pensar que amanhã precisam estar descansados para o trabalho. e, no caso do artista, mesmo que ninguém goste do desenho (também servem músicas, bordados, escritos e afins), mesmo que ninguém  mais saiba que aquilo é arte , mesmo que a obra não seja muito boa, mesmo que não se ganhe dinheiro  ou reconhecimento  e as dívidas se amontoem no topo da geladeira, ao invés de voltar pra casa para simplesmente repor as forças  necessárias a um trabalho alienado, o artista vai desenhar , cantar, tocar, bordar ou escrever  qualquer coisa que talvez não seja linda, mas que é sua. e isto tudo é só para, depois de fazer, olhar com satisfação para a coisa e dizer : ainda bem que eu sou artista. e sendo assim,  da condição de  o condenado da história, o artista passa a dono de sua mais-valia ; e ao invés de mero sujeito de uma auto-valoração ridícula,  o artista é livre.

tAZ


Escrevia cartas para um professor de cães
que morava no seu quarto
Explicava a teoria de fazer crescer um dente na parede
quando Erik Satie lhe ensinasse a morte.

Falava também daquela outra teoria muito formidável:

ASSALTAR O IMPERIALISMO NA PRIMAVERA
PARA FAZER CHOVER SAPOS VUDU NA FILADÉLFIA.

Quando um cara veio visitá-lo
ele existia tão nervoso
Suas tintas contempladas com sustos
passeavam como um trem
no sentido mineiro de trem

O cara perguntou:

Por que você escreve cartas para alguém 
que vive debaixo do seu nariz? 
Preciso me comunicar, explicar minhas teorias,  
mostrar como elas precisam ser trabalhadas coletivamente, 
ele respondeu...

As conversas ficavam sempre mais inusitadas,
não como se fossem surrealistas, dadaístas,
mas realmente inusitadas,
brincavam, brigavam e não saiam do quarto.

Poemas apenas como bombas
para fazer que algum obama fizesse xixi nas calças.

Quando receberam um telegrama que contava da morte
de um chefe do fundamentalismo islâmico
pensaram uma minerva interessante
mas não ficaram do lado dos assassinos
pois estudavam tipos de religião
mais avançadas que o imperalismo.

O lugar era nefasto, sujo, com bastante fumo no ar.
A tinta sobrava como assobio
e eles rimavam...

Aquela coisa não terminou  como Gauguin e Van Gogh
ou como Rimbaud e Verlaine  e nem mesmo como Ginsberg 
e seu companheiro Peter Orlovski,
terminou como João e José
sem nome no mundo.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Os cavalos e o enigma


não interessava cantar nossa condição de cavalos para fim
a morte me arremessava no mais terrível silêncio
                                                             e gostava disso
gostava também dos poemas de mostrar a morte
Baudelaire Álvares de Azevedo Becket Augusto dos Anjos
hospitais cemitério vermes me tornavam senil 
e minha vida destestava isso,
apesar de seus tons escuros,
minha vida  se deliciava com a vida, 
com sua claridade escura e incompleta.

a morte dançava hiperbólica e vitoriosa pela vida
algumas vezes, usando uma retórica ancestral, 
tentava convencer da importância  de aprender a morrer, 
           nessas noites estranhas eu lia o Fédon de Platão
                                           e os Frutos da Terra de Gide,
mas não me intessava a morte
me sentia mais à vontade falando da vida,
acontecimento que já revelava a morte e não era tão triste.
                    
A mãe morta, sem a presença de Deus, leitora de Dostoiévski um mês antes de morrer, me fez desejar escrever esse acontecimento de ser um dia Abiatar e no outro dia ser apenas um corpo se desfazendo na terra, então escrevi um comentário sobre a morte, recebi risadas, meu poema reclamava da existência, se pesava, era bem pior que os meus palavrões.

diante do luto vi a escrita como um monstro  
voltei à falácia das bucetas e à dificuldade da escrita
e me apaixonei por clara-a-morte, no seu enigma.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

V Quase Concreto

  
Aos Desejos


Só por hoje cansei de amores em cartas
Queria era afundar as mãos no alcance dos teus lábios.
Porque, se acreditar é fundamentalmente um ato...
Deus do céu, quanto pecado!




  

IV Quase Concreto


Crescer


É aprender a gostar.

Gostar de comer jiló e cebola,
gostar de falar complicado,
gostar de ficar parado,
etc.

Já reparou como velho gosta de tudo?

Velho gosta de conversar fiado
Velho gosta de jogar baralho,
Velho gosta de receber visita,
etc.

É que crescer é se acostumar com a vida,
e velho já está acostumado.





III Quase Concreto

   
Clusters

Odeio ter essa memória de elefante

Seria bem mais elegante ter uma alta e esguia.

Uma memória de girafa eu queria.






II Quase Concreto




Tempo

Estipule um prazo,
eu prometo
.
.
.
Excedo sua
expectativa de atraso.






I Quase Concreto

.




IN verso

é a metade IN terna do verso.






.

sexta-feira, 11 de março de 2011

western

pintor encontra o silêncio na calçada

intenso
como a enrugada árvore do conhecimento
deseja a lama e a cratera

você sabe o nome e o resto do nome que tanto me doía?
sabe que tentei imitar Beckett e encontrei meu rosto?
sabe que meu rosto era esqueleto inválido profundamente pálido e sem literatura?

sabe que misturei poesia com vontade de revolução e
amanheci ensopado com ciúmes semelhantes aos que faziam Delacroix e Ingres
se sentirem inimigos?

Não, você não sabe
mas está manhã
inexoravelmente
o guarda-chuva de Beckett era uma dor bonita na nossa pele

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

um trapo

marcela vive na minha lingua,
vive em em Ouro Preto, Caratinga e São João Del Rei
mora metade em  Sabará
e não sabe que o poeta
se sente distante
da capital do sonho

vi marcela;
o poema se chamava
de cães e rosas
e se perdeu na parede branca
da universidade

foi quando o poeta
costurava seus dedos
na porta do Tazmania

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A HONRA AMARRADA

ele, o caralho
é um canalha

que teu roto agasalho
atrapalha

ele, o caralho, sem dó,
como um cão na cachorra,
cheio de porra ,
dá um nó !

tua honra amarrada
âncora de preconceitos...

... vai ao fundo
do oceano dos leitos

e agora todo mundo
chupa os teus peitos