quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Caldeira Literária

licantropia
felina e ferina
dentro de teu ósculo

seu corpo nu
no quarto
um quarto do que quero

você lá e eu cá

teu post scriptvm
inteiro
texto
ido vago vadio
ainda assim, texto

o ósculo virou
letras e queimaduras

LER E ESCREVER



"De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito.

Não é fácil compreender sangue alheio: eu detesto todos os ociosos que lêm.

O que conhece o leitor já nada faz pelo leitor. Um século de leitores, e o próprio espírito terá mau cheiro."

Assim falava Zaratustra

Para relembrar

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Pessoa

Carência


o gosto na boca
era o plágio
trancada, mãos no teto
era o gosto
ofenderam o papel
o grande rei riu
e humildemente
era o plagio...
o Cæsar agora está nú
e o plagio é citação
e cito-me com o papel
ofendido

João Paulo Barbosa

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

CANÇÃO PARA UM VIADO

nada de olhos no breu que ouço,
nada de corpo no buraco risco,
nada de homens ou amores transitórios
perto do lago enquanto ele chupa seu pau...
nada de amor depois do sexo,
nada disso, daquilo, só cigarros...
a vida é uma gargalha caindo no chão
e você um padre que não beija mais...
um buda no telhado da alma. Rodrigo.
OS NOMES

a palavra de amor me palavra
come nome resto
a palavra de amor nos palavra
e um buda de palavreado pobre
plavra flores no meu haicai...


a lógica sem lógica me molha
e o cuspe na boca do buda
espalha poetas nas artérias do tempo...

meus porquês são azuis, Antônia...
e a folha branca continua esquecendo
em mim esses nomes claros...
josé
antônio
manuel


e o gelo-poema continua ferindo a página
e estamos de novo na capital do sonho...

vejo você na dançarina louca da avenida Afonso Pena...
as cores dela são traços nus.
traços sem símbolos de linguagem.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Fogo morto

O crepitar do fogo soa como
passos em folhas secas.
Incêndios são sempre perdas –
de planta, terra, água, ar e paz.
Perdas também queimam.
Em labaredas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

David de Souza

Amigo bandido
sumido ido
do grito surge
o eu nele
erotismo calado
tempo tempo templo
de eras que vão.
e voltam

Síndrome de Babel

Um luar inscrito
Nos tijolos do teu peito
Compõem o mosaico
Da tua construção inacabada


(Niterói, uma madrugada de junho de 2005)


Cassio Brancaleone

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Tarde
chove.
chove muito.
e você lá ao longe,
olhando
a chuva
e eu
na chuva
molhando.
eu, voce e a chuva.
João Pequeno